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terça-feira, 28 de junho de 2016

COLUNA | A dança macabra do tempo (Parte II)

Por Italo Machado
29/06/2016 - Fortaleza

Clique aqui para ler a primeira parte deste conto.
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Recusar esses planos não colava mais, o homem moderno distante envolveu o braço numa mulher de mesmo jeito. Ela tinha o cabelo curto, usava um cardigan com saia curta. Ambos muito simpáticos moveram suas cabeças chamando por mim. Então senti trair o velhinho saltitante, a senhora das flores e os brinquedos solitários.

Troquei muitas coisas por outras. No momento me parecia o melhor a ser feito, o mais aceitável e menos constrangedor. A transição foi feita rápida e precisamente, um truque de mágica. Cigarro e bebida eram necessários. E foram nesses instantes de fumaça e espelhos, com demônios e aranhas gigantes a dançar no ar, que notei meu crescimento.
O relógio não havia parado. “Ele nunca parou”. O relógio não parava. E quando foi que eu aceitei isso? Não teria um contrato? E se caso tivesse, não teria eu o quebrado? Uma voz distante não parava de gritar e subir e gritar e subir… E chegou ao nó da garganta como um soco.

A dona aranha 
subiu pela parede. 
Veio a chuva forte 
e a derrubou.
Já passou a chuva, 
o sol já vai surgindo.
E a dona aranha 
continua subindo...

“Você tá bem? Quer vomitar?”

Os olhos mareados e inconsistentes. Sorri, fiz com a mão um gesto despreocupado. 

“Tô ótimo”.

O banheiro era grande e cheio de quadros de pessoas em vasos sanitários. Aquilo lembrava a época punk de um modo muito caricato e artificial. Diante do espelho, nada era tão simples de identificar, meu rosto, meus olhos, minha boca que tremia.

“Você tá bem, rapaz?”, outra vez perguntaram; não liguei.

“Sim, sim, acho que é fome”.

E aquilo era verdade. Cercando meu rosto magro, estava a barba rala que por muito tempo recusou-se a crescer. Deixava de gerar um sentimento de conquista para causar repulsa. Nada daquilo me agradava.

“Isso nunca lhe agradou”.

Num susto, levantei a cabeça e corri os olhos por todo o lugar. Do outro lado do espelho – o imediatismo não me permitia virar o corpo – a porta voltava-se para fechar, e pude jurar que um par de pernas finas escapava por ali, dançando. Não dançando de modo feliz, apenas sendo levado, pelas coisas que levam, porque continuar me olhando era difícil.

Cheguei a bater no rosto, deixando a pele vermelha, ignoraria o visto e poderia continuar vivendo daquele jeito. Claro!

“Não.”

Aquilo era perfeitamente normal. Todos vivem assim. Por que…

“Não.”

…eu não poderia ser que nem…

“Não.”

… eles?

“Não.”

Não, não, não, o tempo não muda. O tempo não cansa de continuar andando e falando – às vezes gritando, às vezes cantando –, não espera por ninguém, não espera você se arrumar para pegar o trem, não corre se o dia tiver chuva enquanto se deseja uma praia, não volta se o muito velho quiser subir em árvores. Mas ele não obedece a ninguém, ele é justo. O que posso negar? Tenho apreço pelo velhinho! Nunca se pode fazer as coisas voltarem a ser como antes, mas por que então deixá-las? Na verdade, elas nunca se vão, o tempo muda, é claro, mas o que há de ruim é feito pelo homem. Você vai embora de casa e vai trabalhar e vai fazer as coisas da vida de homem e mulher e cão. E você, diga, deixa para trás aqueles dias?

O tempo é que sofre por você, sinto dizer. E seria bem compreensível se ele lhe maltratasse. Mas ele não faz isso sempre.

As flores do canteiro diminuíram porque foram substituídas pela praticidade do plástico, mas nunca deixaram de existir. Há uma parte delas, descobri, tão natural quanto o sol que as banhava de dourado. Sempre estiveram lá. O lugarzinho sobrado era suficiente para viver caso alguém assim desejasse. Eu escolhi não morar lá, mas deixá-lo em plano de fundo, como uma boa lembrança a ser resgatada da memória nos dias difíceis. A recusa pelo avanço, o zeitgeist, no entanto, continuou.

“Meio termo nunca é fácil, mas por eliminatória pode-se tirar muitas coisas, sabe…”.

A velhinha sorriu e me disse em tom satisfeito:

“Com o tempo você melhora”.

Vai ver que esse é o problema. Fazer as pazes com o tempo, melhorar com ele, é uma boa ideia. Vai ver que assim eu tomo jeito e aprendo de vez a sair de cima do muro.

Até lá eu faço o que me agrada. Seja por comodismo ou luxo ou ingenuidade ou preguiça, tudo se acaba mesmo. Só que o homem moderno e seu par de fachada não vão sorrir para mim. Essa é a minha eliminação, meu assassinato. “Que a chuva molhe suas máscaras de maquiagens maquiavélicas. Ah, e que o tempo os façam velhos. Ranzinzas, do tipo que não dançam. E não me procurem de novo!” A porta é batida; é uma morte sincera.

Sempre que o relógio marcar Tarde, eu vou dar dois tapinhas ou tacá-lo logo na parede. Não posso aceitar a verdade assim tão fácil.

Porque, às vezes, a gente esquece, às vezes, a gente perdoa, às vezes, a gente lembra com carinho. Às vezes, a gente tudo.

E o tempo não volta, mas outras vezes a gente volta, estando sujeito a tudo que passou de novo, de novo e de novo...

[FIM]

Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


"Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui!". Como o Pequeno Nemo de 1905, tenho medo que descubram quem eu sou ou onde vivo. Amante da fantasia, de tudo aquilo que conta o real de forma improvável. Cinéfilo e contista.

domingo, 5 de junho de 2016

COLUNA. A dança macabra do tempo (parte I)

Por Italo Machado
05/06/2016 - Fortaleza

Um dia o tempo diminuiu o passo, entrou pela janela e conversou comigo. Ele era um velhinho de jeito engraçado, com as canelas tão finas que quando andava parecia estar dançando. De vez em quando o vento batia e ele saía rodopiando. Mas isso não impediu que ele me dissesse:

“Cuidado com o que pensa, a gente volta, mas o tempo não”.

Assim ele riu como todo velho ri e deixou o vento lhe levar de vez. E o tempo passou para muita gente. Mas o tempo não passou para mim.

Quando o relógio marcasse Tarde é que eu iria acreditar que o tempo passou. Até então continuava sendo eu mesmo, de mesma idade, de mesmo cabelo bagunçado, sorriso e jeito torto de pensar. As costas doíam, mas eu não queria acreditar que já era hora de pensar num novo plano de fuga.

“Infalível. Incontestável…”.

“Não temos, infelizmente”.

“Inacreditável”.

Planos de fuga nunca são feitos com o real objetivo: de fuga; com a melhor das intenções, certamente, mas acontece que todo plano é uma procrastinação. “A fuga não pode ser hoje?”

“Não”.

“Oh…”.

Queria dois Guias de Fuga. Pedi por favor. A moça repetiu que não tinha, e me deu por vencido, virando as costas, e depois quando já saía a ouvi depois cochichar para outra pessoa que não tinha era paciência de procurar. Foi preciso ignorar a raiva.

Foi preciso ignorar muita coisa para tomar jeito na vida. O caminho de açúcar, aquela velha estrada de tijolos amarelos, já tinha desaparecido, já era só uma lenda, e muitos diziam que sempre fora uma. Mas eu sabia que era bem real. Ouvi dizer, uma senhora que regava as flores todos os dias dos canteiros ali perto, os que antes eram extensos e definitivamente bem mais coloridos, me contou com certa melancolia.

 “Desapareceu quando se espalhou o boato que era feito de ouro. Logo se foi. Você sabe como funcionam as coisas…”.

Essa foi a gota d’água, foi o brilho de verdade que não mais me parecia familiar, que realizar grandes feitos não era tão simples assim. Quanto eu estivera distraído?

Daí em diante a memória me falhava mais que o normal. A infância era um passado distante, mas não tão distante quanto deveria ser. Crescer não tinha tempo, apesar de tudo que eu vivia no momento era ordenado por isso.

“Eu podia chamar isso”, eu disse à garota de cabelos ruivos no meu quarto, “de Terra do Nunca, sabe, aquela do Peter Pan…”.

Parecia ter falado só para as quinquilharias que flutuavam no lugar. A ruiva respondeu:

“Você podia tomar jeito”.

Não, obrigado. Aquilo era exigir demais. Não deu dois dias para que eu a enjoasse e expulsasse de casa. As quinquilharias insistiram.

“Certo então”, eu disse a elas, botando uma calça e uma camisa de marca. “Eu realmente vou ter que fazer isso. Sabe, não é todo dia que eu consigo essa coragem. Essa paciência de ser que nem os outros. Quê? Que vocês estão olhando? Isso não tem nada a ver com o que ela disse… Bem, talvez tenha. Mas eu nunca vou deixar vocês. Não vou tomar jeito, não o jeito deles. Vou fingir um pouquinho".

Elas deixaram de flutuar por um instante, caíram até quase encostar ao chão. Peguei todos eles: os livros, os toca-fitas, as páginas de rabiscos, o trenzinho de madeira e os jogos de tabuleiro.

“Ora, parem com isso. Preciso de dinheiro!”.

O dinheiro foi o suficiente para aguentar as demandas locais. O local era no início muito pequeno, a área era cinzenta, árvores colocadas metodicamente, nada de tão natural. Só que um dia eu vi isso noutro lugar, um inesperado. Depois, noutro, eu ri. Porque isso tudo não me deixou perplexo, talvez estava sob o efeito do fingimento. Ora, tudo aquilo era bem normal acontecer, uma vez em casa, eu poderia respirar aliviado.

Isso não aconteceu porque, bem… porque tudo corria muito rápido. Vestir um terno exigia esforço, e quase não havia tempo. Mal chegava em casa para dormir, e já era hora de correr ao som agoniado do relógio.

“Eu já ouvi”.

Acabavam-se os sete dias, no último era convidado para a diversão. Neste eu via um homem de atlético blazer prateado, era simpático, mas o senso de humor muito reservado ao absolutismo: “Vai ser divertido”.

“A gente te mostra a cidade”.

“Mas eu não sou de fora…”, rebati.

“Não?”, caras de espanto e então dentes sendo descortinados forçadamente.

[Continua]

Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


"Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui!". Como o Pequeno Nemo de 1905, tenho medo que descubram quem eu sou ou onde vivo. Amante da fantasia, de tudo aquilo que conta o real de forma improvável. Cinéfilo e contista.