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Curso de Letras da UECE

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"Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução..." - Machado de Assis

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quarta-feira, 29 de junho de 2016

COLUNA | Qual o valor do seu trabalho?

Por Danielle Cardoso
29/06/2016 - Fortaleza

Olá, pessoal! Tudo bem com vocês? Estamos no fim do mês de junho (já?), espero que vocês tenham aproveitado as festas juninas e, para fechar esse mês, aqui na coluna, quero compartilhar um tema difícil de lidar: (des)valorização do trabalho. Como está o reconhecimento do que você faz? Se as pessoas não valorizam seu trabalho, não se preocupe, você não está só. Vem comigo?!

Quase todo universitário chega a um ponto que, para continuar na faculdade, tem de trabalhar. E aí, a gente já sabe: se já era difícil só estudar, estudar e trabalhar, então, é quase impossível. O problema é que muita gente (familiares, professores, amigos, governo) faz questão de não reconhecer todo o esforço de jovens para serem alguém na vida, desvalorizando muitos tipos de trabalho. Entendo trabalho como todo e qualquer tipo de atividade, remunerada ou não, que uma pessoa possa fazer. Estudar é um trabalho, o primeiro e mais duradouro de nossas vidas. Como dói quando nos matamos de estudar para aquela semana de prova, no fim do semestre, e chega aquela pessoa que diz: “Vai limpar a casa, já que você não faz nada, só estuda!”. Dica: respire fundo e continue estudando.

Nós, da área de Humanas, estudamos essencialmente para sermos professores. E quer profissão mais desvalorizada que essa? Você tem várias turmas, cada uma mais lotada que a outra, muitas vezes, com alunos desanimados numa sala que não tem a mínima estrutura para se dar aulas. E isso acontece com o magistério assim como com outras profissões também muito importantes, mas que têm pouco reconhecimento numa sociedade que adora inverter valores. No entanto, você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o tema da coluna. Simples, além de estudar, também trabalho. E vocês podem imaginar o quão é complicado, para mim, fazer as duas coisas.

Vai fazer um ano que sou estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social. O Laboratório é um centro de estudos, pesquisas e desenvolvimento de projetos de inclusão social para pessoas com deficiência e vulnerabilidade social. Nós temos tantos projetos e fazemos tanta coisa, que fica difícil responder quando me perguntam o que faço lá. Oficinas, palestras, reuniões, planejamentos e relatórios fazem parte da minha rotina de trabalho. Não é fácil, a luta por acessibilidade é grande, mas amo o que faço.

Por ser tetraplégica, tenho carga horária reduzida e, por incrível que pareça, há gente que desvaloriza meu trabalho por isso. Para algumas pessoas, trabalho ainda é aquele que você sai de manhã e volta à noite. Fazer a diferença na vida das pessoas, incentivar, informar e abrir caminhos para os que ainda virão é tão importante, mas, para muitos, estou brincando de trabalhar. Afinal, sou deficiente, não preciso nem posso entrar nesse mercado. Alguém perguntou à minha mãe para que eu tiraria minha carteira de trabalho. Algumas pessoas ainda se perguntam como posso ser incluída e se assustam ao ver que faço muitas coisas. Entendo que é difícil aceitar o diferente, mas é preciso ter mente aberta para evoluirmos.

E assim é. Aguentar certas coisas me deixam muito desanimada, às vezes. Mesmo que não demostre, eu percebo quando a intenção da pergunta é me diminuir, percebo aquele deboche em certos comentários. Mas cada palestra que faço, cada texto que escrevo e cada obrigado que recebo reafirmam minha certeza de que estou no caminho certo, me fortalecem e me fazem olhar para o que ou quem verdadeiramente importa. Sou teimosa o suficiente para ignorar preconceitos e seguir em frente.

Enfim, acho que todo trabalho tem um valor. Já pensou o que seria de você sem aquela pessoa que fica cuidando da casa? Sem aquele que lhe serve no restaurante? Sem a pessoa que apanha o lixo da cidade? Pense e comece a respeitar, sem diminuir ou prescrever a capacidade de ninguém. Você que se sente desvalorizado, lute e mostre, a quem for preciso, a importância daquilo que você faz. Respeitar também é uma forma de amar e é de amor que o mundo está precisando. Espalhem amor e até a próxima!


Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer. 
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terça-feira, 28 de junho de 2016

COLUNA | A dança macabra do tempo (Parte II)

Por Italo Machado
29/06/2016 - Fortaleza

Clique aqui para ler a primeira parte deste conto.
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Recusar esses planos não colava mais, o homem moderno distante envolveu o braço numa mulher de mesmo jeito. Ela tinha o cabelo curto, usava um cardigan com saia curta. Ambos muito simpáticos moveram suas cabeças chamando por mim. Então senti trair o velhinho saltitante, a senhora das flores e os brinquedos solitários.

Troquei muitas coisas por outras. No momento me parecia o melhor a ser feito, o mais aceitável e menos constrangedor. A transição foi feita rápida e precisamente, um truque de mágica. Cigarro e bebida eram necessários. E foram nesses instantes de fumaça e espelhos, com demônios e aranhas gigantes a dançar no ar, que notei meu crescimento.
O relógio não havia parado. “Ele nunca parou”. O relógio não parava. E quando foi que eu aceitei isso? Não teria um contrato? E se caso tivesse, não teria eu o quebrado? Uma voz distante não parava de gritar e subir e gritar e subir… E chegou ao nó da garganta como um soco.

A dona aranha 
subiu pela parede. 
Veio a chuva forte 
e a derrubou.
Já passou a chuva, 
o sol já vai surgindo.
E a dona aranha 
continua subindo...

“Você tá bem? Quer vomitar?”

Os olhos mareados e inconsistentes. Sorri, fiz com a mão um gesto despreocupado. 

“Tô ótimo”.

O banheiro era grande e cheio de quadros de pessoas em vasos sanitários. Aquilo lembrava a época punk de um modo muito caricato e artificial. Diante do espelho, nada era tão simples de identificar, meu rosto, meus olhos, minha boca que tremia.

“Você tá bem, rapaz?”, outra vez perguntaram; não liguei.

“Sim, sim, acho que é fome”.

E aquilo era verdade. Cercando meu rosto magro, estava a barba rala que por muito tempo recusou-se a crescer. Deixava de gerar um sentimento de conquista para causar repulsa. Nada daquilo me agradava.

“Isso nunca lhe agradou”.

Num susto, levantei a cabeça e corri os olhos por todo o lugar. Do outro lado do espelho – o imediatismo não me permitia virar o corpo – a porta voltava-se para fechar, e pude jurar que um par de pernas finas escapava por ali, dançando. Não dançando de modo feliz, apenas sendo levado, pelas coisas que levam, porque continuar me olhando era difícil.

Cheguei a bater no rosto, deixando a pele vermelha, ignoraria o visto e poderia continuar vivendo daquele jeito. Claro!

“Não.”

Aquilo era perfeitamente normal. Todos vivem assim. Por que…

“Não.”

…eu não poderia ser que nem…

“Não.”

… eles?

“Não.”

Não, não, não, o tempo não muda. O tempo não cansa de continuar andando e falando – às vezes gritando, às vezes cantando –, não espera por ninguém, não espera você se arrumar para pegar o trem, não corre se o dia tiver chuva enquanto se deseja uma praia, não volta se o muito velho quiser subir em árvores. Mas ele não obedece a ninguém, ele é justo. O que posso negar? Tenho apreço pelo velhinho! Nunca se pode fazer as coisas voltarem a ser como antes, mas por que então deixá-las? Na verdade, elas nunca se vão, o tempo muda, é claro, mas o que há de ruim é feito pelo homem. Você vai embora de casa e vai trabalhar e vai fazer as coisas da vida de homem e mulher e cão. E você, diga, deixa para trás aqueles dias?

O tempo é que sofre por você, sinto dizer. E seria bem compreensível se ele lhe maltratasse. Mas ele não faz isso sempre.

As flores do canteiro diminuíram porque foram substituídas pela praticidade do plástico, mas nunca deixaram de existir. Há uma parte delas, descobri, tão natural quanto o sol que as banhava de dourado. Sempre estiveram lá. O lugarzinho sobrado era suficiente para viver caso alguém assim desejasse. Eu escolhi não morar lá, mas deixá-lo em plano de fundo, como uma boa lembrança a ser resgatada da memória nos dias difíceis. A recusa pelo avanço, o zeitgeist, no entanto, continuou.

“Meio termo nunca é fácil, mas por eliminatória pode-se tirar muitas coisas, sabe…”.

A velhinha sorriu e me disse em tom satisfeito:

“Com o tempo você melhora”.

Vai ver que esse é o problema. Fazer as pazes com o tempo, melhorar com ele, é uma boa ideia. Vai ver que assim eu tomo jeito e aprendo de vez a sair de cima do muro.

Até lá eu faço o que me agrada. Seja por comodismo ou luxo ou ingenuidade ou preguiça, tudo se acaba mesmo. Só que o homem moderno e seu par de fachada não vão sorrir para mim. Essa é a minha eliminação, meu assassinato. “Que a chuva molhe suas máscaras de maquiagens maquiavélicas. Ah, e que o tempo os façam velhos. Ranzinzas, do tipo que não dançam. E não me procurem de novo!” A porta é batida; é uma morte sincera.

Sempre que o relógio marcar Tarde, eu vou dar dois tapinhas ou tacá-lo logo na parede. Não posso aceitar a verdade assim tão fácil.

Porque, às vezes, a gente esquece, às vezes, a gente perdoa, às vezes, a gente lembra com carinho. Às vezes, a gente tudo.

E o tempo não volta, mas outras vezes a gente volta, estando sujeito a tudo que passou de novo, de novo e de novo...

[FIM]

Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


"Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui!". Como o Pequeno Nemo de 1905, tenho medo que descubram quem eu sou ou onde vivo. Amante da fantasia, de tudo aquilo que conta o real de forma improvável. Cinéfilo e contista.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

COLUNA | Escolhi ser feliz

Por Danielle Cardoso
08/06/2016 - Fortaleza

Oi, gente! Tudo bem? Desde já, quero agradecer o feedback maravilhoso que recebo a cada texto publicado, o que me dá mais força para continuar escrevendo. Gratidão! Até agora, falei dos desafios que enfrento para estudar, trabalhar, viver enfim. Hoje, quero compartilhar um pouco daquilo que me motiva a lutar todos os dias por um mundo melhor. Vamos lá?!

Desde que entrei na UECE, tive que dobrar minhas forças para não desistir. Como vocês já puderam perceber, não foi e não é nada fácil estar na UECE, ser a única cadeirante do Centro de Humanidades e enfrentar coisas que parecem surreais de tão inacreditáveis que são. Ao passar no vestibular, eu meio que já imaginava que minha vida seria muito complicada, a partir daquele momento, por isso, quis recuar, decidi não fazer minha matrícula, mas existem seres humanos que são verdadeiros anjos na nossa vida.

Além da força que meus amigos me deram, também recebi muito apoio do diretor da escola onde eu estudava na época (ressalto que sou oriunda de escola pública e tenho muito orgulho disso). Essa pessoa maravilhosa, inclusive, é, em parte, o culpado por eu estar no sétimo semestre do Curso de Letras. Ele nunca desistiu de mim, sempre me incentivou muito a estudar, a prestar vestibular e quase me obrigou a fazer minha matrícula, inclusive me acompanhando, no dia em que fui chamada, e me ajudando pelo tempo que pôde no meu processo de transição e adaptação na UECE.

E não foi só ele, não. Meus professores do ensino médio me apoiaram muito também. Penso que verdadeiros professores são heróis, porque podem mudar a vida de seus alunos. Com todo o apoio, não teve como desistir do meu sonho de ser universitária. De lá para cá, abracei uma luta contra o preconceito e em prol de acessibilidade e de inclusão que não tem fim e requer força e coragem.

Tendo toda uma história de perseverança, irrito-me ao ver pessoas reclamando por problemas pequenos, pessoas que se dizem arrependidas de terem nascido por não terem uma vida dentro dos padrões convencionais de normalidade. A vaidade exacerbada tem deixado pessoas lindas extremamente feias e tristes. Meninas têm que ser magras, têm que ter namorado e as que não têm ficam depressivas. Rapazes têm de “pegar todas”, se não são menosprezados pela sociedade.

É complicado olhar para o lado e perceber que a vida não acabou porque você amanheceu com dor de cabeça. Não estou querendo diminuir os problemas de ninguém, não conheço a realidade de quem está lendo este texto. Só quero repassar o que minha mãe me ensinou muito bem: ou você escolhe ser feliz, apesar de tudo, ou você é triste. No meu caso, mesmo tendo tudo para nem sair de casa - afinal não ando, não falo normalmente, tenho poucos amigos, não tenho namorado nem nunca tive a atenção de um pai -, escolhi ser feliz e isso fez toda a diferença na minha vida.

Graças a isso e ao amor sem medidas de minha mãe, hoje, sou universitária, estagiária, palestrante e colunista. Já pensou se eu tivesse escolhido a outra opção? Se consegui tudo isso, não há desculpas para pessoas acharem que não são capazes. Se você, por acaso, está desanimado(a) com alguma coisa, reflita e perceba que existem situações bem mais difíceis que a sua. Se esse não é seu caso, veja se você pode doar um pouco do seu tempo para ouvir e entender alguém. Isso é tão enriquecedor, vocês nem imaginam! 

Você tem saúde? Se sim, agradeça e vá à luta! Reclamações não resolvem problemas! Espero que você se inspire neste texto e seja uma pessoa melhor a cada dia. Não deixe de acompanhar nossa coluna! Leia, comente e compartilhe, sua opinião e participação são muito importantes para mim. Na próxima, vou falar de falta de reconhecimento no trabalho. Já passou por isso? Acompanhe e até lá!

Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer. 
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domingo, 5 de junho de 2016

COLUNA. A dança macabra do tempo (parte I)

Por Italo Machado
05/06/2016 - Fortaleza

Um dia o tempo diminuiu o passo, entrou pela janela e conversou comigo. Ele era um velhinho de jeito engraçado, com as canelas tão finas que quando andava parecia estar dançando. De vez em quando o vento batia e ele saía rodopiando. Mas isso não impediu que ele me dissesse:

“Cuidado com o que pensa, a gente volta, mas o tempo não”.

Assim ele riu como todo velho ri e deixou o vento lhe levar de vez. E o tempo passou para muita gente. Mas o tempo não passou para mim.

Quando o relógio marcasse Tarde é que eu iria acreditar que o tempo passou. Até então continuava sendo eu mesmo, de mesma idade, de mesmo cabelo bagunçado, sorriso e jeito torto de pensar. As costas doíam, mas eu não queria acreditar que já era hora de pensar num novo plano de fuga.

“Infalível. Incontestável…”.

“Não temos, infelizmente”.

“Inacreditável”.

Planos de fuga nunca são feitos com o real objetivo: de fuga; com a melhor das intenções, certamente, mas acontece que todo plano é uma procrastinação. “A fuga não pode ser hoje?”

“Não”.

“Oh…”.

Queria dois Guias de Fuga. Pedi por favor. A moça repetiu que não tinha, e me deu por vencido, virando as costas, e depois quando já saía a ouvi depois cochichar para outra pessoa que não tinha era paciência de procurar. Foi preciso ignorar a raiva.

Foi preciso ignorar muita coisa para tomar jeito na vida. O caminho de açúcar, aquela velha estrada de tijolos amarelos, já tinha desaparecido, já era só uma lenda, e muitos diziam que sempre fora uma. Mas eu sabia que era bem real. Ouvi dizer, uma senhora que regava as flores todos os dias dos canteiros ali perto, os que antes eram extensos e definitivamente bem mais coloridos, me contou com certa melancolia.

 “Desapareceu quando se espalhou o boato que era feito de ouro. Logo se foi. Você sabe como funcionam as coisas…”.

Essa foi a gota d’água, foi o brilho de verdade que não mais me parecia familiar, que realizar grandes feitos não era tão simples assim. Quanto eu estivera distraído?

Daí em diante a memória me falhava mais que o normal. A infância era um passado distante, mas não tão distante quanto deveria ser. Crescer não tinha tempo, apesar de tudo que eu vivia no momento era ordenado por isso.

“Eu podia chamar isso”, eu disse à garota de cabelos ruivos no meu quarto, “de Terra do Nunca, sabe, aquela do Peter Pan…”.

Parecia ter falado só para as quinquilharias que flutuavam no lugar. A ruiva respondeu:

“Você podia tomar jeito”.

Não, obrigado. Aquilo era exigir demais. Não deu dois dias para que eu a enjoasse e expulsasse de casa. As quinquilharias insistiram.

“Certo então”, eu disse a elas, botando uma calça e uma camisa de marca. “Eu realmente vou ter que fazer isso. Sabe, não é todo dia que eu consigo essa coragem. Essa paciência de ser que nem os outros. Quê? Que vocês estão olhando? Isso não tem nada a ver com o que ela disse… Bem, talvez tenha. Mas eu nunca vou deixar vocês. Não vou tomar jeito, não o jeito deles. Vou fingir um pouquinho".

Elas deixaram de flutuar por um instante, caíram até quase encostar ao chão. Peguei todos eles: os livros, os toca-fitas, as páginas de rabiscos, o trenzinho de madeira e os jogos de tabuleiro.

“Ora, parem com isso. Preciso de dinheiro!”.

O dinheiro foi o suficiente para aguentar as demandas locais. O local era no início muito pequeno, a área era cinzenta, árvores colocadas metodicamente, nada de tão natural. Só que um dia eu vi isso noutro lugar, um inesperado. Depois, noutro, eu ri. Porque isso tudo não me deixou perplexo, talvez estava sob o efeito do fingimento. Ora, tudo aquilo era bem normal acontecer, uma vez em casa, eu poderia respirar aliviado.

Isso não aconteceu porque, bem… porque tudo corria muito rápido. Vestir um terno exigia esforço, e quase não havia tempo. Mal chegava em casa para dormir, e já era hora de correr ao som agoniado do relógio.

“Eu já ouvi”.

Acabavam-se os sete dias, no último era convidado para a diversão. Neste eu via um homem de atlético blazer prateado, era simpático, mas o senso de humor muito reservado ao absolutismo: “Vai ser divertido”.

“A gente te mostra a cidade”.

“Mas eu não sou de fora…”, rebati.

“Não?”, caras de espanto e então dentes sendo descortinados forçadamente.

[Continua]

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quarta-feira, 25 de maio de 2016

COLUNA. Normalidade cansa

Por Danielle Cardoso
25/05/2016 - Fortaleza

Olá, pessoal! O tema de hoje não é nada fácil de tratar. De cara, já vou logo perguntando: você se considera normal? Se sim, que padrões você segue para se considerar assim? E todos que são diferentes de você são anormais? Vamos refletir sobre estas e outras questões que sempre me intrigam. Vem pensar comigo?!

Há quase dois meses, um vídeo “bombou” na internet. Era a entrevista de André Lodi, um adolescente filho de duas mães, que aconteceu no programa “Altas Horas” (Rede Globo). O garoto simplesmente deu um show em suas respostas e, principalmente, quando alguém da plateia insinuou que não achava a sua família normal, por ser constituída por duas mães. Quando terminei de ver o vídeo, uma pergunta veio, imediatamente, à minha cabeça: o que é normal, nos dias de hoje? Pessoas que são a favor da família tradicional criticaram o garoto e, aí, acabei me posicionando no Facebook. É um direito seu defender a família tradicional e não vou discutir com você, mas seu direito acaba quando começa a prejudicar, de forma preconceituosa, o direito de liberdade do outro de ter o núcleo familiar que for.

Bem, você deve estar se perguntando por que estou falando disso e o que isso tem a ver com a coluna. Simples! Comecei a me questionar se sou normal, porque acho que, para me posicionar, tenho que, primeiramente, me colocar no lugar do outro. A conclusão a que cheguei foi que, dentro de uma sociedade conservadora e hipócrita, não sou e não quero ser normal! A normalidade me cansa, é chata e tenho tudo para ser considerada “anormal”: sou mulher, deficiente, esquerdista, criada só por minha mãe, "de humanas". Eu não tenho autoridade nenhuma para classificar quem ou o que é normal, só sei que, se você me chamar de anormal, não vai me ofender.

Já disse aqui, em meu primeiro texto, que, às vezes, acho que sou uma E.T. Isto porque, mesmo estudando no CH da UECE, que tem uma diversidade linda, as pessoas se assustam em ver meus movimentos e se afastam por conta da minha cadeira de rodas. Mesmo com o número crescente de deficientes no Brasil, é espantoso ver um cadeirante sair, estudar, formar família. Assim acontece com o negro, a mulher (que deve ser bela recatada e do lar, risos), o homossexual, o pobre e por aí vai. Parece que é errado dar vez e voz para estas pessoas. Tudo isso porque a tal da normalidade, construída socio-historicamente, não deixa as pessoas verem as diferenças com naturalidade. Já pensou se todo mundo fosse igual, pensando a mesma coisa e vivendo do mesmo jeito?! Que chato seria, não é mesmo?

Vivemos numa democracia, na qual, perante a lei, somos todos iguais. No entanto, isso não significa que seja ao pé da letra, não significa que eu pense, fale e me comporte igual a você. Isso significa que tenho os mesmos direitos e deveres que você, que, perante a lei, devemos ser tratados com isonomia e que devemos nos respeitar. Na prática, infelizmente, não é o que acontece. Os menos favorecidos têm de lutar para estudar, trabalhar. É isso que faço todos os dias.

De longe, todos são “normais”, mas, de perto, ninguém é! Antes de criticar e discriminar aquele que é diferente de você, olhe-se no espelho e veja que você também é diferente, você também tem limitações e também quer respeito. Alegre-se, você é único! Respeite, pois só assim vão te respeitar! O bom é viver a diversidade da vida, pela qual sou apaixonada, não há nada melhor do que aprender com o outro. Se todos entendessem que ser diferente é normal, o mundo seria muito melhor! Pensem nisso e até a próxima!


Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

COLUNA. A Educação precisa estar na contramão da discriminação

Por Danielle Cardoso
16/05/2016 - Fortaleza

Olá, gente! Tudo bem? Espero que sim! Considerando que estamos, UECE, enfrentando uma greve docente e um momento político muito complicado, quero começar o post de hoje manifestando toda a minha solidariedade aos alunos e aos professores. Aliás, por falar em professores, eles farão parte da nossa conversa de hoje.

Se você já está pensando em trancar alguma disciplina por não ter se dado bem com o professor, eu lhe entendo. Também já passei por professores que me deixavam bem mal e é isto que quero compartilhar com vocês dessa vez. Sou Dani Cardoso e estou aqui para a nossa segunda postagem no Blog Letras na UECE.

Quem nunca passou por um professor que marcou negativamente? Daquele que quer que você decore o(s) texto(s) e transcreva na prova, passando por aquele que fala mais do que você no seminário e aquele que diz “Aqui, só ficam os fortes”, indo até o professor turista, que falta demais ou que só fala das viagens que já fez. Embora cada um tenha sua maneira de ensinar e devamos respeitar essa diversidade, convenhamos que, se já é difícil lidar com professores como os que mencionei, o que dizer daqueles que ainda são preconceituosos?

Homofobia, conservadorismo, racismo, machismo, capacitismo, etc. O preconceito tem várias faces e se manifesta de várias formas. Todo mundo tem preconceito, isso é fato, mas, particularmente, acredito que, quando você se dispõe a ser professor, você deve ter em mente que dará aula para uma enorme variedade de pessoas e o seu preconceito tem de ficar em casa. Nós, “de Humanas”, temos que ter esta sensibilidade muito mais apurada, pois convivemos com uma diversidade linda já em nosso ambiente universitário. E não estou falando que as outras áreas não devem se preocupar com isso, pelo contrário, mas nós, justamente por lidarmos diretamente com a diversidade de ideias, deveríamos ser exemplos de tolerância.

Por ser deficiente, já ouvi muito “Eu não sei lidar com ela, porque na faculdade nunca tive aula de Educação Especial”. Certo, não posso negar que a grande maioria dos cursos de licenciatura não oferecem preparação nenhuma ao futuro professor para que ele lide bem com alunos com necessidades “específicas” (este termo surgiu de uma conversa com meus colegas de curso e decidi usá-lo, mesmo não sendo epistemológico, por achar que é mais apropriado do que “necessidades especiais”, que dá margem para que tratem pessoas com deficiência como especiais, diferentes dos outros, o que não acho legal). É uma realidade que, aos poucos, está mudando. Apesar de achar importante que haja uma preparação específica nos cursos de graduação para que licenciandos saibam como lidar com alunos deficientes, acredito que, enquanto essa preparação ainda não existe, a formação humana que qualquer curso de licenciatura oferece já ajuda bastante. Não é possível chegar para o seu aluno e conversar com ele? Garanto: você pode aprender muito com ele!

Ignorar o problema ainda parece mais fácil do que enfrentar o problema. Tive professores, antes de entrar na UECE, que fingiam não me ver. Eu explico. Houve um que estava fiscalizando prova e, por eu ter sido a última a terminar, me deixou sozinha na sala, alegando que “todos” já tinham terminado. Outro, não sei se por achar que eu não era capaz, me excluía de quase todas as atividades. Outro pulava meu número de chamada ou fingia que não ouvia quando eu respondia (esse chegou a perguntar se eu entendia o que era falado ou se eu era surda).

Eu sei que tenho meus movimentos e que demoro um pouco para responder a alguma coisa (por isso, não precisa falar comigo quando você passar por mim apressado. Provavelmente, eu não conseguirei lhe responder ou não vou lhe ver. Já houve gente que passou por mim correndo, gritou meu nome e não tive tempo de levantar a cabeça e responder. Enquanto a pessoa pensou que eu a havia ignorado, eu sequer a tinha reconhecido), mas dá para perceber que não sou surda e que entendo até o que não devia. É uma falta de atenção imensa, falta de interesse em observar o aluno e/ou conversar com ele. Você não precisa de preparação para isto, tenho certeza!

Como já disse, há vários jeitos de ensinar, mas, quando boa parte da turma não entende o conteúdo, tem alguma coisa errada com você, professor. Certo professor de uma matéria de Exatas, na escola, explicava cálculos como se narrasse um jogo de futebol. Grande parte da turma não entendia, mas ele não se importava, pois eram os alunos que não prestavam atenção (tá “serto”!). Eu, particularmente, chorava, porque sabia que tiraria nota baixa. Quando questionado por uma amiga sobre minha situação, o professor respondeu: “É aquela velha história: um dia, ela vai deixar de acompanhar”. Hoje, estou no sétimo semestre do curso de Letras… Ele se enganou!

No texto anterior desta coluna, descrevi todas as dificuldades pelas quais passei quando entrei na UECE. Graças a pessoas interessadas em me ajudar, muita coisa se resolveu: colocaram minhas disciplinas em apenas uma sala do térreo; a Universidade, enfim, garantiu meu transporte; a sala em que estudo conta com uma mesa para o professor e uma para mim… Mas, como a luta por acessibilidade é um processo lento, ainda passo por momentos como quando um professor finge que não existo, como quando esse mesmo professor se recusa a dar aula no térreo, mesmo com a coordenação falando que eu existia ali, me forçando a contar com servidores e amigos para me subirem e me descerem, se eu quisesse assistir às aulas. 

Se fosse hoje, eu denunciaria tais atitudes, mas, na época, não sabia como fazer isso. Prefiro pensar que “aquilo que não mata, fortalece”, saí mais forte. É com esta “frase de Facebook” (risos) verdadeira que termino meu texto. E, se você está pensando em desistir de uma disciplina por algum problema que citei aqui ou por qualquer outro, pense bem. Talvez não seja o melhor. Procure uma solução e, certamente, você encontrará! Não deixe de acompanhar a coluna! No próximo texto, pretendo falar de normalidade. Você é normal? Eu não sou! Fiquem bem e até lá!

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Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

COLUNA. Acessibilidade e inclusão: direito e dever de todos?

Por Danielle Cardoso
27/04/2016 - Fortaleza

Olá, gente! Meu nome é Danielle Cardoso, mas quase todos me chamam de Dani. Sou aluna do Curso de Letras do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e sou a única cadeirante de lá. Tá, você deve estar se perguntando por que estou escrevendo no blog Letras Na UECE. Bem, fui convidada para escrever uma coluna para o blog e o tema será “Os desafios e as superações de uma pessoa com Paralisia Cerebral (PC)”. 

Eu tive PC ao nascer e, por isso, não ando, tenho dificuldades para falar e reajo com movimentos estranhos, involuntários. Aí, você me pergunta: “Ok, Dani, mas o que é Paralisia Cerebral? E o que eu tenho a ver com isso? Para que vou ler seu texto?”. Vamos por partes. PC “é uma lesão cerebral que acontece, em geral, quando falta oxigênio no cérebro do bebê durante a gestação, no parto ou até dois anos após o nascimento”, assim define a jornalista Paula Nadal, para o site Nova Escola. Uma pessoa com PC pode ter complicações na fala, na audição, na visão e no equilíbrio. No entanto, uma criança que tenha tal paralisia não necessariamente tem danos intelectuais. Sou prova viva disto: mesmo com todas as minhas limitações, tenho a parte cognitiva intacta. É aqui que vocês, cidadãos e futuros professores, entram.

Eu explico. Se crianças com PC e com outras deficiências podem não ter comprometimento cognitivo, elas vão estudar, certo? E aí eu pergunto: como o professor deve incluí-las, se elas têm várias outras limitações? Como vocês imaginam que devem lidar com crianças com alguma deficiência em sala de aula? E na rua, vocês as tratam como coitadinhas? Sem falar que ninguém está imune a ter que usar uma cadeira de rodas, ficar cego ou até mesmo ficar tetraplégico por alguma doença ou acidente. E aí, se você não se importa agora, tem preconceito e tudo mais, como vai pedir respeito se um dia isso acontecer? Complicou, não é?

Não estou querendo assustar ninguém, só quero que percebam o quanto é sério que vocês se importem. Chega de “não é comigo, não tô nem aí”. Será mesmo que não é uma realidade, pelo menos, próxima de vocês? Tenho três anos de UECE e lembro bem quando cheguei ao Campus Fátima. Foi cada cara de espanto, tanto “e agora?”, que me assustei. Poxa, eu só queria e quero estudar, é um direito meu! Depois, entendi que o CH nunca teve um aluno nas mesmas condições que eu. Me deparei com muitos professores com doutorado, mas que não tiveram preparação nenhuma para lidar com uma aluna deficiente.

Não foi fácil e ainda não é. Como o CH ainda tem a mesma estrutura, o que vou escrever agora ainda vale para hoje. Minha semana de integração (primeira semana de aula) foi meu primeiro desafio. As palestras eram no andar de cima e o prédio não tem rampas ou elevador, então, o jeito foi os servidores me subirem nos braços, com cadeira e tudo. Hoje, penso duas vezes antes de me inscrever em eventos do CH. Depois, o desafio foi assistir às aulas. Além de ser difícil chegar ao CH, pois a Universidade ainda não havia liberado um transporte para mim e vocês podem imaginar o quanto é impossível um cadeirante pegar um ônibus no horário de pico da manhã, minhas salas ainda eram de difícil acesso. Eram portas estreitas, batentes, escadas, caminhos irregulares cheios de buracos e de outros obstáculos.

Quando conseguia entrar na sala de aula, todos me olhavam com a expressão de “a E.T. chegou”. Isso mexe tanto com o nosso psicológico, vocês nem imaginam. Além disso tudo, eu precisava/preciso de uma mesa para colocar o computador e acompanhar a aula. Quem disse que havia uma mesa na sala? O jeito era os professores me cederem a deles. Chegava a ser engraçada a cena. Sorte que estudei com verdadeiros mestres, mas já escutei perguntas do tipo “Ela acompanha?”, “Ela está matriculada na disciplina?”, “Como dou aula pra ela?”.

Passar por tudo que tentei descrever aqui para ouvir tais perguntas, ainda mais na terceira pessoa do singular, é desesperador, revoltante e tudo o mais que vocês pensarem. Se você leu até aqui e continua não se importando, eu sinto muito. Feche a página. Não tenho mais nada para dizer a você. Mas se você gostou do que leu e quer saber mais sobre como consegui passar por tudo isso e sobre como se preparar para lidar com situações como as que mencionei, acompanhe a coluna. Quinzenalmente, sairá um texto meu aqui e posso garantir que, depois de três anos, tenho muito a falar. Até a próxima!

Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer.