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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

#Opinião | Você precisa denunciar o assédio moral!

Por Dawton Valentim
08/12/2016 - Fortaleza

Era uma estudante do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará. Falava nervosa e os olhos marejavam. Tinha vindo relatar um caso de assédio moral de um professor do curso contra estudantes. Relatos desse tipo sempre foram comuns. Não é difícil encontrar um estudante de sexto ou sétimo semestre que não saiba de cor duas ou três histórias desse tipo. O professor que fez três alunas chorarem ao longo do semestre. A professora que retaliou toda a turma depois do fim da greve. A disciplina que quase metade da turma trancou por não suportar mais o tratamento antididático. 

Durante um ano e três meses, ao lado de cinco amigxs, fiz parte de uma das gestões do Centro Acadêmico de Letras Jáder de Carvalho, encerrada em 28 de julho de 2015. Nesse período, vi e ouvi casos de assédio moral em carne viva, relatados por estudantes como a que iniciou o texto: nervosos, trêmulos, olhos marejados. Esta semana, mais de um ano depois de ter sido do CA, fui abordado por duas colegas de curso com mais duas histórias do tipo. Eis o gatilho para este texto. Precisei, assim, dizer a quem quisesse ler este texto o que disse a essas colegas e a todas as pessoas que me procuraram antes delas com casos semelhantes: você precisa denunciar o assédio moral!

Uma das colegas trancou a disciplina na metade. Visivelmente fragilizada, ela me olhou com uma expressão de vulnerabilidade que não sou capaz de descrever e disse “ela (a professora) disse coisas que não consigo repetir... Só... Só de pensar, sinto vontade de chorar”. A segunda colega me ligou dizendo que seu professor desqualificou todos os trabalhos apresentados durante uma sessão de seminários da maneira mais destrutiva que ele podia. Uma aluna saiu da sala chorando.

Nós naturalizamos a violência e a sujeição. E digo isso olhando para fora da universidade, para o nosso dia a dia. Nós nos acostumamos com a companhia do medo constante ao andar pelas ruas de Fortaleza e com a ideia de que um boletim de ocorrência não tem efeito nenhum. Prova disso é que os casos de assalto dentro dos campi da UECE em Fortaleza possuem alto índice de subnotificação, ou seja, alto índice de vítimas que não registram a ocorrência (fato mencionado pelo atual reitor em entrevista a este mesmo blog). Dentro da universidade, no Curso de Letras especificamente, tenho a sensação de que essa cultura reverbera. “Ele pode me marcar”, “não posso perder essa cadeira”, “ela me reprovaria”, “não aconteceria nada com ela” e "isso não é tão grave quanto parece" são as respostas que mais ouvi em todos os relatos de assédio moral de que tive conhecimento. 

Paralisados pelo senso de hierarquia ou conformados com a ineficiência da Ouvidoria da universidade, os estudantes engolem as humilhações e “sobrevivem” a disciplinas que não os preparam teoricamente mais do que os fragilizam emocionalmente. Então, no começo de cada semestre, grupos no Facebook explodem de comentários que perguntam “como é (didaticamente) professor fulano?” ou “quem é o professor da disciplina tal?”. Quem pensa que todos que fazem tais comentários (apenas) procuram por metodologias leves, esquece-se de que boa parte deles procuram por professores minimamente civilizados. Já para quem não entende o conceito de empatia, preciso dizer que querer ser tratado como gente está longe de ser “frescura”.

E não me entendam mal! Assim como sei que esta não é uma realidade apenas “da Letras”, também sei que nosso curso tem mais professores transformadores do que violentos a oferecer. Prestes a sair da graduação, não consigo fazer caber neste texto as contribuições teóricas, metodológicas, profissionais e humanas que muitos dos professores por quem passei me ofereceram. No entanto, acredito que uma graduação, especialmente em nossa área, não pode ser uma loteria em que, quando menos sortudos, esbarramos com alguém que nos levará aonde a violência linguística mais nos leva: a um não lugar (sugiro conferir SILVA e ALENCAR, sobre violência na linguagem). É preciso, com ênfase nas modalidades de licenciatura, que os professores que são formados na universidade cheguem em suas salas de aula com a consciência de que gritar, ofender e/ou ridicularizar um estudante (ou quem quer que seja) é, além de crime, desumano, desnecessário e antididático. Se você não quer estar em sala de aula, não esteja!

Denunciar esses casos pode ser o melhor que você faz por todos os outros estudantes que também passarão pelo que você passou caso a atenção desse professor ou dessa professora não seja realmente chamada. Ao estilo Bela Gil, você pode trocar a piada “quantos alunos ele vai fazer chorar este semestre? ” por “quantas pessoas conseguimos mobilizar pra dar visibilidade a esses casos de truculência?”


Ao entrar no sistema da Ouvidoria, que possui uma plataforma on-line em que as queixas podem ser registradas de forma anônima (clique aqui para acessar), o denunciante inicia um trâmite interno na universidade. Ao registrar a denúncia, selecione o órgão “Fundação Universidade Estadual do Ceará”. A ocorrência terá de ser respondida em até 15 dias, com possível prorrogação para mais 15 dias. Sugiro, ainda, no caso de seu centro acadêmico ter gestão, que a denúncia seja comunicada à entidade. O CA participa das reuniões de colegiado do curso como representação estudantil e pode solicitar a inclusão da ocorrência na pauta de uma das reuniões. Casos de retaliação, como aqueles em que o professor chega em sala dizendo “fiquei sabendo que alunos me denunciaram...” também devem ser notificados. Em casos comprovadamente mais extremos, o movimento estudantil dispõe de métodos de manifestação, como protesto, abaixo-assinado, carta aberta e afins. Além dessas medidas de caráter administrativo e político, também é possível apelar para ações judiciais, que ficam para outro texto.

Vamos debater, quer seja no campo de comentários, quer seja nos pátios da UECE (não sou difícil de encontrar)! Destacando que, embora eu tenha feito um recorte (como todo texto faz), não estou desconsiderando casos de assédio moral vertical ascendente (de alunos contra professores), encerro este texto com a esperança de que o assédio moral em nosso curso deixe de ser tabu. Na verdade, com a esperança de que ele deixe cada vez mais de ser realidade.

Leituras recomendadas:
Assédio moral na universidade: um estudo de caso em Pernambuco
Assédio moral: uma violência sem flagrantes
O assédio moral no âmbito acadêmico e suas implicações legais
A propósito da violência na linguagem
Aluna ofendida por professor receberá indenização de universidade federal



Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.

Dawton Valentim, "o menino do blog", é, por ainda algumas semanas, estudante do Curso de Letras (Português) da Universidade Estadual do Ceará. Ao longo da graduação, atuou como vice-diretor do Centro Acadêmico de Letras Jáder de Carvalho, como auxiliar administrativo na secretaria do Curso de Letras e como bolsista de iniciação científica, além de ter se metido num monte de projeto massa. Crônico por natureza, faz 97coisasaomesmotempo e ama dizer que o afeto é que move montanhas.


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quarta-feira, 29 de junho de 2016

COLUNA | Qual o valor do seu trabalho?

Por Danielle Cardoso
29/06/2016 - Fortaleza

Olá, pessoal! Tudo bem com vocês? Estamos no fim do mês de junho (já?), espero que vocês tenham aproveitado as festas juninas e, para fechar esse mês, aqui na coluna, quero compartilhar um tema difícil de lidar: (des)valorização do trabalho. Como está o reconhecimento do que você faz? Se as pessoas não valorizam seu trabalho, não se preocupe, você não está só. Vem comigo?!

Quase todo universitário chega a um ponto que, para continuar na faculdade, tem de trabalhar. E aí, a gente já sabe: se já era difícil só estudar, estudar e trabalhar, então, é quase impossível. O problema é que muita gente (familiares, professores, amigos, governo) faz questão de não reconhecer todo o esforço de jovens para serem alguém na vida, desvalorizando muitos tipos de trabalho. Entendo trabalho como todo e qualquer tipo de atividade, remunerada ou não, que uma pessoa possa fazer. Estudar é um trabalho, o primeiro e mais duradouro de nossas vidas. Como dói quando nos matamos de estudar para aquela semana de prova, no fim do semestre, e chega aquela pessoa que diz: “Vai limpar a casa, já que você não faz nada, só estuda!”. Dica: respire fundo e continue estudando.

Nós, da área de Humanas, estudamos essencialmente para sermos professores. E quer profissão mais desvalorizada que essa? Você tem várias turmas, cada uma mais lotada que a outra, muitas vezes, com alunos desanimados numa sala que não tem a mínima estrutura para se dar aulas. E isso acontece com o magistério assim como com outras profissões também muito importantes, mas que têm pouco reconhecimento numa sociedade que adora inverter valores. No entanto, você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o tema da coluna. Simples, além de estudar, também trabalho. E vocês podem imaginar o quão é complicado, para mim, fazer as duas coisas.

Vai fazer um ano que sou estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social. O Laboratório é um centro de estudos, pesquisas e desenvolvimento de projetos de inclusão social para pessoas com deficiência e vulnerabilidade social. Nós temos tantos projetos e fazemos tanta coisa, que fica difícil responder quando me perguntam o que faço lá. Oficinas, palestras, reuniões, planejamentos e relatórios fazem parte da minha rotina de trabalho. Não é fácil, a luta por acessibilidade é grande, mas amo o que faço.

Por ser tetraplégica, tenho carga horária reduzida e, por incrível que pareça, há gente que desvaloriza meu trabalho por isso. Para algumas pessoas, trabalho ainda é aquele que você sai de manhã e volta à noite. Fazer a diferença na vida das pessoas, incentivar, informar e abrir caminhos para os que ainda virão é tão importante, mas, para muitos, estou brincando de trabalhar. Afinal, sou deficiente, não preciso nem posso entrar nesse mercado. Alguém perguntou à minha mãe para que eu tiraria minha carteira de trabalho. Algumas pessoas ainda se perguntam como posso ser incluída e se assustam ao ver que faço muitas coisas. Entendo que é difícil aceitar o diferente, mas é preciso ter mente aberta para evoluirmos.

E assim é. Aguentar certas coisas me deixam muito desanimada, às vezes. Mesmo que não demostre, eu percebo quando a intenção da pergunta é me diminuir, percebo aquele deboche em certos comentários. Mas cada palestra que faço, cada texto que escrevo e cada obrigado que recebo reafirmam minha certeza de que estou no caminho certo, me fortalecem e me fazem olhar para o que ou quem verdadeiramente importa. Sou teimosa o suficiente para ignorar preconceitos e seguir em frente.

Enfim, acho que todo trabalho tem um valor. Já pensou o que seria de você sem aquela pessoa que fica cuidando da casa? Sem aquele que lhe serve no restaurante? Sem a pessoa que apanha o lixo da cidade? Pense e comece a respeitar, sem diminuir ou prescrever a capacidade de ninguém. Você que se sente desvalorizado, lute e mostre, a quem for preciso, a importância daquilo que você faz. Respeitar também é uma forma de amar e é de amor que o mundo está precisando. Espalhem amor e até a próxima!


Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer. 
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segunda-feira, 13 de junho de 2016

OPINIÃO | A mídia e suas meias verdades sobre a ocupação das escolas estaduais do Ceará

Por Jana Lisboa
13/06/2016 - Fortaleza

Alguns jornais divulgam notícias sobre a greve dos professores e a ocupação das escolas do estado do Ceará, como se os únicos motivos fossem o reajuste salarial (de 12,5%) e o aumento do subsídio para a merenda escolar (que atualmente é de R$ 0,31 por aluno). Isso, para não dizer que é uma “meia verdade”, é um recorte midiático. Difundem, também, movimentos distintos de professores e estudantes desunidos atrás de interesses próprios. Eu não me espanto que eles façam isso. 

As notícias ainda trazem informações sobre como não são todos os professores e professoras que aderiram à greve. O motivo não é a falta de concordata de reajuste salarial e melhores condições físicas e psicológicas de ensino que fez com que nem todos os professores e professoras aderissem à greve. Aliás, foi exatamente por essa pressão psicológica que espalha para professores temporários e em período aprobativo que, caso estes aderissem à greve, seriam demitidos, que fez que nem todos eles participassem. Não me apavoro que eles insistam nesse foco. 

Para além do reajuste salarial, sobram motivos para as professoras e os professores entrarem em greve. E, definitivamente, os vários alunos e alunas que estão ocupando as escolas não têm como única preocupação a verba vergonhosa para a merenda, caso contrário, a média de 10% dos alunos e alunas das escolas ocupadas não estariam acampados nas escolas, bancando a alimentação do seu próprio bolso. O que eles temem em mostrar é que a greve e as ocupações são movimentos que estão juntos na elaboração de uma malha educacional acessível e de qualidade.

Reajuste salarial, sim, alimentação decente, também. Mas para além disso, estruturas escolares dignas, material didático em mãos durante o calendário letivo, o Passe Livre para que se possa ter o conhecimento de mundo e um ensino crítico sobre o empoderamento de gêneros (não só o feminino, mas todos eles) e negros, a força da classe econômica menos abastada que unida e organizada entende que pode mudar as estruturas sociais para uma educação mais ampla e digna.

Nas minhas visitas às escolas e nas minhas conversas com os professores estaduais, eu não encontrei uma ocupação que não fosse organizada, um estudante que não soubesse o que queria, um mestre ou mestra que, apesar de estar dando um basta para a memorização que os seus superiores demandavam, não fosse humilde o suficiente para saber que estava aprendendo com os seus aprendentes. 

É por isso que a mídia insiste em dar foco no pequeno recorte das pequenezas. Pois se eles mostrassem o todo, quero dizer, o gigante que é esse movimento, essa união, essa luta, seria de aterrorizar aqueles que estão preocupados em manter as estruturas sociais rígidas, não seria? 


Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.

Jana Lisboa é formada em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Especialista em Tradução e Interpretação. Mestre em linguística aplicada. Contadora de Histórias. Diluidora da sociedade líquida. Faz textão no Facebook. Acha que toda forma de amor é válida. Acredita que a educação deveria ser um bem acessível a todos e até hoje sente muita dificuldade de falar sobre o que ela ama.


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

COLUNA | Escolhi ser feliz

Por Danielle Cardoso
08/06/2016 - Fortaleza

Oi, gente! Tudo bem? Desde já, quero agradecer o feedback maravilhoso que recebo a cada texto publicado, o que me dá mais força para continuar escrevendo. Gratidão! Até agora, falei dos desafios que enfrento para estudar, trabalhar, viver enfim. Hoje, quero compartilhar um pouco daquilo que me motiva a lutar todos os dias por um mundo melhor. Vamos lá?!

Desde que entrei na UECE, tive que dobrar minhas forças para não desistir. Como vocês já puderam perceber, não foi e não é nada fácil estar na UECE, ser a única cadeirante do Centro de Humanidades e enfrentar coisas que parecem surreais de tão inacreditáveis que são. Ao passar no vestibular, eu meio que já imaginava que minha vida seria muito complicada, a partir daquele momento, por isso, quis recuar, decidi não fazer minha matrícula, mas existem seres humanos que são verdadeiros anjos na nossa vida.

Além da força que meus amigos me deram, também recebi muito apoio do diretor da escola onde eu estudava na época (ressalto que sou oriunda de escola pública e tenho muito orgulho disso). Essa pessoa maravilhosa, inclusive, é, em parte, o culpado por eu estar no sétimo semestre do Curso de Letras. Ele nunca desistiu de mim, sempre me incentivou muito a estudar, a prestar vestibular e quase me obrigou a fazer minha matrícula, inclusive me acompanhando, no dia em que fui chamada, e me ajudando pelo tempo que pôde no meu processo de transição e adaptação na UECE.

E não foi só ele, não. Meus professores do ensino médio me apoiaram muito também. Penso que verdadeiros professores são heróis, porque podem mudar a vida de seus alunos. Com todo o apoio, não teve como desistir do meu sonho de ser universitária. De lá para cá, abracei uma luta contra o preconceito e em prol de acessibilidade e de inclusão que não tem fim e requer força e coragem.

Tendo toda uma história de perseverança, irrito-me ao ver pessoas reclamando por problemas pequenos, pessoas que se dizem arrependidas de terem nascido por não terem uma vida dentro dos padrões convencionais de normalidade. A vaidade exacerbada tem deixado pessoas lindas extremamente feias e tristes. Meninas têm que ser magras, têm que ter namorado e as que não têm ficam depressivas. Rapazes têm de “pegar todas”, se não são menosprezados pela sociedade.

É complicado olhar para o lado e perceber que a vida não acabou porque você amanheceu com dor de cabeça. Não estou querendo diminuir os problemas de ninguém, não conheço a realidade de quem está lendo este texto. Só quero repassar o que minha mãe me ensinou muito bem: ou você escolhe ser feliz, apesar de tudo, ou você é triste. No meu caso, mesmo tendo tudo para nem sair de casa - afinal não ando, não falo normalmente, tenho poucos amigos, não tenho namorado nem nunca tive a atenção de um pai -, escolhi ser feliz e isso fez toda a diferença na minha vida.

Graças a isso e ao amor sem medidas de minha mãe, hoje, sou universitária, estagiária, palestrante e colunista. Já pensou se eu tivesse escolhido a outra opção? Se consegui tudo isso, não há desculpas para pessoas acharem que não são capazes. Se você, por acaso, está desanimado(a) com alguma coisa, reflita e perceba que existem situações bem mais difíceis que a sua. Se esse não é seu caso, veja se você pode doar um pouco do seu tempo para ouvir e entender alguém. Isso é tão enriquecedor, vocês nem imaginam! 

Você tem saúde? Se sim, agradeça e vá à luta! Reclamações não resolvem problemas! Espero que você se inspire neste texto e seja uma pessoa melhor a cada dia. Não deixe de acompanhar nossa coluna! Leia, comente e compartilhe, sua opinião e participação são muito importantes para mim. Na próxima, vou falar de falta de reconhecimento no trabalho. Já passou por isso? Acompanhe e até lá!

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Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer. 
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

COLUNA. Normalidade cansa

Por Danielle Cardoso
25/05/2016 - Fortaleza

Olá, pessoal! O tema de hoje não é nada fácil de tratar. De cara, já vou logo perguntando: você se considera normal? Se sim, que padrões você segue para se considerar assim? E todos que são diferentes de você são anormais? Vamos refletir sobre estas e outras questões que sempre me intrigam. Vem pensar comigo?!

Há quase dois meses, um vídeo “bombou” na internet. Era a entrevista de André Lodi, um adolescente filho de duas mães, que aconteceu no programa “Altas Horas” (Rede Globo). O garoto simplesmente deu um show em suas respostas e, principalmente, quando alguém da plateia insinuou que não achava a sua família normal, por ser constituída por duas mães. Quando terminei de ver o vídeo, uma pergunta veio, imediatamente, à minha cabeça: o que é normal, nos dias de hoje? Pessoas que são a favor da família tradicional criticaram o garoto e, aí, acabei me posicionando no Facebook. É um direito seu defender a família tradicional e não vou discutir com você, mas seu direito acaba quando começa a prejudicar, de forma preconceituosa, o direito de liberdade do outro de ter o núcleo familiar que for.

Bem, você deve estar se perguntando por que estou falando disso e o que isso tem a ver com a coluna. Simples! Comecei a me questionar se sou normal, porque acho que, para me posicionar, tenho que, primeiramente, me colocar no lugar do outro. A conclusão a que cheguei foi que, dentro de uma sociedade conservadora e hipócrita, não sou e não quero ser normal! A normalidade me cansa, é chata e tenho tudo para ser considerada “anormal”: sou mulher, deficiente, esquerdista, criada só por minha mãe, "de humanas". Eu não tenho autoridade nenhuma para classificar quem ou o que é normal, só sei que, se você me chamar de anormal, não vai me ofender.

Já disse aqui, em meu primeiro texto, que, às vezes, acho que sou uma E.T. Isto porque, mesmo estudando no CH da UECE, que tem uma diversidade linda, as pessoas se assustam em ver meus movimentos e se afastam por conta da minha cadeira de rodas. Mesmo com o número crescente de deficientes no Brasil, é espantoso ver um cadeirante sair, estudar, formar família. Assim acontece com o negro, a mulher (que deve ser bela recatada e do lar, risos), o homossexual, o pobre e por aí vai. Parece que é errado dar vez e voz para estas pessoas. Tudo isso porque a tal da normalidade, construída socio-historicamente, não deixa as pessoas verem as diferenças com naturalidade. Já pensou se todo mundo fosse igual, pensando a mesma coisa e vivendo do mesmo jeito?! Que chato seria, não é mesmo?

Vivemos numa democracia, na qual, perante a lei, somos todos iguais. No entanto, isso não significa que seja ao pé da letra, não significa que eu pense, fale e me comporte igual a você. Isso significa que tenho os mesmos direitos e deveres que você, que, perante a lei, devemos ser tratados com isonomia e que devemos nos respeitar. Na prática, infelizmente, não é o que acontece. Os menos favorecidos têm de lutar para estudar, trabalhar. É isso que faço todos os dias.

De longe, todos são “normais”, mas, de perto, ninguém é! Antes de criticar e discriminar aquele que é diferente de você, olhe-se no espelho e veja que você também é diferente, você também tem limitações e também quer respeito. Alegre-se, você é único! Respeite, pois só assim vão te respeitar! O bom é viver a diversidade da vida, pela qual sou apaixonada, não há nada melhor do que aprender com o outro. Se todos entendessem que ser diferente é normal, o mundo seria muito melhor! Pensem nisso e até a próxima!


Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

COLUNA. Acessibilidade e inclusão: direito e dever de todos?

Por Danielle Cardoso
27/04/2016 - Fortaleza

Olá, gente! Meu nome é Danielle Cardoso, mas quase todos me chamam de Dani. Sou aluna do Curso de Letras do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e sou a única cadeirante de lá. Tá, você deve estar se perguntando por que estou escrevendo no blog Letras Na UECE. Bem, fui convidada para escrever uma coluna para o blog e o tema será “Os desafios e as superações de uma pessoa com Paralisia Cerebral (PC)”. 

Eu tive PC ao nascer e, por isso, não ando, tenho dificuldades para falar e reajo com movimentos estranhos, involuntários. Aí, você me pergunta: “Ok, Dani, mas o que é Paralisia Cerebral? E o que eu tenho a ver com isso? Para que vou ler seu texto?”. Vamos por partes. PC “é uma lesão cerebral que acontece, em geral, quando falta oxigênio no cérebro do bebê durante a gestação, no parto ou até dois anos após o nascimento”, assim define a jornalista Paula Nadal, para o site Nova Escola. Uma pessoa com PC pode ter complicações na fala, na audição, na visão e no equilíbrio. No entanto, uma criança que tenha tal paralisia não necessariamente tem danos intelectuais. Sou prova viva disto: mesmo com todas as minhas limitações, tenho a parte cognitiva intacta. É aqui que vocês, cidadãos e futuros professores, entram.

Eu explico. Se crianças com PC e com outras deficiências podem não ter comprometimento cognitivo, elas vão estudar, certo? E aí eu pergunto: como o professor deve incluí-las, se elas têm várias outras limitações? Como vocês imaginam que devem lidar com crianças com alguma deficiência em sala de aula? E na rua, vocês as tratam como coitadinhas? Sem falar que ninguém está imune a ter que usar uma cadeira de rodas, ficar cego ou até mesmo ficar tetraplégico por alguma doença ou acidente. E aí, se você não se importa agora, tem preconceito e tudo mais, como vai pedir respeito se um dia isso acontecer? Complicou, não é?

Não estou querendo assustar ninguém, só quero que percebam o quanto é sério que vocês se importem. Chega de “não é comigo, não tô nem aí”. Será mesmo que não é uma realidade, pelo menos, próxima de vocês? Tenho três anos de UECE e lembro bem quando cheguei ao Campus Fátima. Foi cada cara de espanto, tanto “e agora?”, que me assustei. Poxa, eu só queria e quero estudar, é um direito meu! Depois, entendi que o CH nunca teve um aluno nas mesmas condições que eu. Me deparei com muitos professores com doutorado, mas que não tiveram preparação nenhuma para lidar com uma aluna deficiente.

Não foi fácil e ainda não é. Como o CH ainda tem a mesma estrutura, o que vou escrever agora ainda vale para hoje. Minha semana de integração (primeira semana de aula) foi meu primeiro desafio. As palestras eram no andar de cima e o prédio não tem rampas ou elevador, então, o jeito foi os servidores me subirem nos braços, com cadeira e tudo. Hoje, penso duas vezes antes de me inscrever em eventos do CH. Depois, o desafio foi assistir às aulas. Além de ser difícil chegar ao CH, pois a Universidade ainda não havia liberado um transporte para mim e vocês podem imaginar o quanto é impossível um cadeirante pegar um ônibus no horário de pico da manhã, minhas salas ainda eram de difícil acesso. Eram portas estreitas, batentes, escadas, caminhos irregulares cheios de buracos e de outros obstáculos.

Quando conseguia entrar na sala de aula, todos me olhavam com a expressão de “a E.T. chegou”. Isso mexe tanto com o nosso psicológico, vocês nem imaginam. Além disso tudo, eu precisava/preciso de uma mesa para colocar o computador e acompanhar a aula. Quem disse que havia uma mesa na sala? O jeito era os professores me cederem a deles. Chegava a ser engraçada a cena. Sorte que estudei com verdadeiros mestres, mas já escutei perguntas do tipo “Ela acompanha?”, “Ela está matriculada na disciplina?”, “Como dou aula pra ela?”.

Passar por tudo que tentei descrever aqui para ouvir tais perguntas, ainda mais na terceira pessoa do singular, é desesperador, revoltante e tudo o mais que vocês pensarem. Se você leu até aqui e continua não se importando, eu sinto muito. Feche a página. Não tenho mais nada para dizer a você. Mas se você gostou do que leu e quer saber mais sobre como consegui passar por tudo isso e sobre como se preparar para lidar com situações como as que mencionei, acompanhe a coluna. Quinzenalmente, sairá um texto meu aqui e posso garantir que, depois de três anos, tenho muito a falar. Até a próxima!

Os textos assinados e os pensamento expressados neles são de inteira responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do blog Letras Na UECE.


Sou Danielle Cardoso, graduanda do curso de Letras Português – Bacharelado da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e estagiária do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS). Sou cadeirante, pois tive Paralisia Cerebral ao nascer, o que afetou meus movimentos e minha dicção, mas não minha vontade de vencer.